Boletim Informativo da
Associação Espírita de Estudos Evangélicos
Francisco de Paula Victor
 
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AMOR FRATERNAL

           Qual será o tipo de amor que sentimos pelas pessoas? A dúvida pode parecer vazia, mas com certeza preenche as reflexões de muita gente. Os mais jovens, sobretudo, sofrem intensamente, quando, nos primeiros mergulhos em busca do outro, tentam de toda maneira definir se estão amando ou se ainda estagiam na fase da paixão arrebatadora.

Pior ainda: como discernir entre amor e paixão? Porque a primeira imagem que passa a habitar o coração apaixonado é a de que aquele ser, que mais parece de outro mundo, tamanha a força com que nos envolveu, nunca mais vai deixar de ocupar esse altar de luzes em que vivem os apaixonados.

Quando a força dos fatos e da verdade começa a trazer o mito para a sua realidade pessoal, não mais de semideus, mas de ser humano com mil e um caminhos diferentes dos da pessoa que está amando, o castelo de sonho começa a ruir, caindo como tudo que se constrói sem a devida permissão do tempo.

Segundo os estudiosos do sentimento, existem quatro espécies de amor, de acordo com a tradição ocidental. Uma é a sexual, ou que podemos chamar sensualidade, libido. A segunda é eros, o impulso de amar para procriar ou criar. Segundo os gregos, é o ímpeto em direção a formas mais elevadas de ser e relacionar-se. A terceira é philia, ou amizade, o amor fraterno. A quarta é ágape, termo grego, ou cáritas, como a chamavam os latinos, o amor dedicado ao bem do próximo, do qual o modelo cósmico de aceitação universal é o amor de Deus pelo homem.

O sexo está na base do edifício porque é a força procriadora, fonte de intensos prazeres humanos e ao mesmo tempo de enormes ansiedades. Na forma enlouquecida de nossos dias, pode atirar o indivíduo a pantanais de desespero e, quando aliado às outras expressões do sentimento, erguê-lo às culminâncias do êxtase.

A capacidade de relacionar-se com novas formas de experiência humana vai levando o homem às outras expressões do amor. Nem é necessário comentar sobre o sentimento de amor ao próximo, definido como ágapeou cáritas, porque esse é um dos modelos mais estudados por Allan Kardec e os Espíritos nas obras da Codificação. Interessa-nos abordar com bastante atenção philia, o amor fraternal.

Quais os sentimentos que formam a base do amor fraterno? Como diferençá-lo dos outros tipos de amor, muito embora saibamos que na vida de todos, os quatro modelos estão presentes, misturados entre si?

Uma consideração importante, que nos adianta no rumo da descoberta: a amizade e o amor exigem que participemos do padrão de significados dos outros, mas sem renunciar aos pessoais. Preservando a autenticidade e a autonomia de pensamento, estamos no caminho correto de um relacionamento feliz.

E aí entra no quadro de possibilidades a questão da liberdade, argumento fatal de quem se acha oprimido e quer se livrar do parceiro, rumo a uma vida sem limites. O Espiritismo nos sugere que entendamos a liberdade e a vontade não como forças de negação do determinismo, mas sim como meios de relacionamento com ele. É o que afirma, por exemplo, o filósofo holandês Espinosa, quando diz que "liberdade é reconhecimento da necessidade". Daí o incentivo a que os casais em crise conjugal busquem os infinitos meios para se descobrirem um ao outro, antes de desatarem os laços de uma união que exigiu muito empenho de ambos os lados da vida, o corporal e o espiritual.

O Espírito Emmanuel comenta ¹ que o equilíbrio é a posição ideal, quando a criatura eleva as emoções no altar do sentimento superior. Sem essa medida, podemos atrapalhar a caminhada dos que conosco vivem. "Por demasia de cuidados, muitos pais prejudicam os filhos", diz.  "Por excesso de preocupações, muitos cônjuges descem às cavernas do desespero, defrontados pelos insaciáveis monstros do ciúme que lhes aniquilam a felicidade".

Na opinião do Instrutor, o amor fraternal é o mais sublime dos sistemas de relações entre as almas. Emmanuel considera que "o homem que se sente filho de Deus e sincero irmão das criaturas não é vítima dos fantasmas do despeito, da inveja, da ambição, da desconfiança. Ele se alegra com o júbilo dos companheiros e se sente feliz com a ventura dos semelhantes".

Diante da força desse sentimento, é possível avaliar até a justiça da reencarnação. Elas têm a força de modificar os títulos afetivos que definem o sentimento entre as pessoas. Se ontem o casal foi marido e mulher, por exemplo, hoje pode ser pai e filha, ou mãe e filho, ou irmãos, o que vai provocar uma mudança no registro psíquico do sentimento amoroso, sem desequilíbrios íntimos.

O que Emmanuel quer lembrar é o fato de que, alterando-se ou não a forma dos seres se relacionarem através dos tempos, o modelo que não muda é o do amor fraterno que, "enquanto sublime e puro, representando o objetivo supremo do esforço de compreensão, torna-se a luz imperecível que sobreviverá no caminho eterno" 

                                                                                                  Carlos Augusto Abranches

(1) Pão Nosso, psicografia de Francisco Cândido Xavier, cap. 141, Ed. FEB


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